segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Osmose 90


Há sempre alguma incomodidade nas partidas. Mas também na chegada. Chamam-lhe jet lag, quanto à sensação física de desconforto (muitas vezes, com mudanças horárias e de sono), talvez por conveniência prática de classificação. Mais difícil, porém, é definir e nomear o estado de alma do pré e post-viagem: o não estar cá nem lá. Enquanto não arrumamos, de todo, o chip interno que nos acompanhou. Que as roupas, os livros e as fotos quase se arrumam por si, automaticamente, numa submissão parada de natureza morta.

domingo, 22 de outubro de 2017

Apontamento 107: A acentuada caminhada para a degradação


  

Aqueles que se encontram já – e felizmente – fora do chamado “mundo do trabalho”, que mais apropriadamente se devia designar actualmente por nova escravatura, afastaram-se de um ambiente de extrema hostilidade e ignorância sobre o mais elementar senso comum e respeito pelas normas mínimas de civilidade e dignidade humanas.

Pontualmente, ou por opção de manter a comunicação com o mundo real, ou por invasão abusiva dos tentáculos do MUNDO ECONÓMICO E FINANCEIRO que nos entra pela casa adentro – por via de telecomunicações e empresas quejandas – termos de nos confrontar com esse “mundo às avessas” que nos pretende tornar, nos seus ritos publicitários, preventivos e securativos, em “gado a caminho do matadouro” sem pensamento autónomo.

Por acaso, não consegui melhor imagem quando me vi, naqueles “SSS” tolos e repetitivos dos aeroportos, todos iguais e desumanos, a aproximar-me do “matador”, ou seja, do “sigurança” de poucas falas e ainda menor civilidade para atender seres humanos, já que foi escolhido e ensinado, pela eficácia do mundo financeiro, apenas para prestar um serviço inócuo, repetitivo e completamente degradante.

No meio deste deserto de humanidade em que se tornaram os aeroportos e toda a economia turística, espanta-me, pela revolta íntima que senti, que ainda haja tanta gente a querer viajar e sujeitar-se a esses tratamentos caninos, sem levantar voz ou reclamar.

No passado, andei pela Europa em muitos transportes – pedestres, automóveis, fluviais, aéreos e ferroviários – com muitas deficiências próprias da época e dos países em questão.

Confesso, no entanto, que nunca senti tanto desprezo pela pessoa humana como na última viagem, fruto de um novo domínio do ECONÓMICO, sem regras, sem limites e sem consideração pela essência e dignidade humanas, completamente desorganizado e caótico nos pretensos serviços prestados ao CLIENTE.

Assim, as “boas vindas” das hospedeiras da TAP, com o seu refrão “chapa-zero” e completamente vazias de conteúdo, não conseguem anular, de todo, uma actividade económica de turismo, montada com objectivos opostos, revelando-se, efectivamente, como uma ofensa insuportável e contínua à dignidade humana, física, mental e assistencial.

A imagem acima não tem nada a ver com as contrariedades e a gravidade do texto. Serve, exactamente, de contraste para saber se, nas condições expostas, valerá a pena sair do nosso lugar de sossego e humanidade possível.

Fica o testemunho do cumprimento de um “dever metodológico” de investigação que, embora associado a outros afazeres de natureza diversa, representa, até ao momento, a pior experiência de deslocação para o lugar de “meninos a dormitar em acervos distantes”. Gostei, no entanto, do “berço” em que os “meninos” estavam dormitando.


Salve seja !

Post de HMJ

Revivalismo Ligeiro CCLXXIII

Mercearias Finas 126


Fiquei na dúvida mas, na mesa à minha esquerda, de perfil, pareceu-me ver John Le Carré percutindo afanosamente um Apple diminuto e elegante, enquanto debicava uma salada vegan bem colorida e bebendo água de Évian. Acoplado ao Hilton de Bayswater, o Aubaine serve clientes do hotel e alguns passantes que se tentem pela sua cozinha de feição gaulesa e pela carta de vinhos não muito extensa, mas bem seleccionada, ao que me pareceu. Os preços são acessíveis.
No conduto, optámos pelo Steak and Frittes, e para libação Le Montalus, branco de 2016, com 12,5º, meio seco e saboroso. Das Côtes de Thau, com duas castas que eu desconhecia: Colombard e Terret. Fizeram muito boa companhia à carne tenra dos bifes bem passados, que vinham com uns raminhos muito frescos e verdes de agriões...


E enquanto HMJ tinha por horizonte, em frente, o Kensington Park, com que ia alegrando a vista, eu ia observando a azafama interior do serviço, ao fundo. Em que pontificava um jovem chefe de mesas, ágil e dinâmico que, embora pudesse ser mourisco pelo sotaque e pela tez acobreada, também me fazia lembrar o Andy Garcia do "Padrinho III", do Coppola.
Ressalvo, em tempo, que o Aubaine, como restaurante, não tinha nada de mafioso...

sábado, 21 de outubro de 2017

Um provérbio inglês


Birds of a feather, flock together.

(Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Últimas aquisições


Eu nunca tinha ido à Foyles, em Charing Cross. E W. H. Auden era um motivo maior.
Mas Emily Dickinson também colhe as minhas preferências. Colhia-a na British Library.
E o livro sobre Matisse, de Alastair Sooke, veio da Royal Academy of Arts, quando visitei a exposição Matisse in the Studio, em muito boa hora.


Stacey Kent / Kazuro Ishiguro

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Não há 2 sem 3


Com a velha e soberana ironia inglesa, o último TLS (nº 5976) afirma que, hoje em dia, é mais difícil um escritor ganhar um Grammy, do que um letrista ser premiado com o Nobel da Literatura.
Em apoio desta conclusão fascinante, refere Patrick Modiano que escreveu cantigas para Françoise Hardy e Lucy Hope, e o cantautor Dylan que também escreveu para meio mundo e para si próprio. O último Nobel da Literatura, Kazuo Ishiguro quase conseguiu um Grammy com as 4 canções que compôs para o álbum de Stacey Kent (Breakfast on the Morning Tram), mas não chegou lá...
Mas não falhou o Nobel da Literatura, este ano.
Que Jacques Brel e Leonard Cohen lhes perdoem!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Algures a Noroeste do Hyde Park


O dominical mercado de artesanato dos anos 80 sumiu-se, reduzido a dois pintores de Domingo, com telas desinspiradas de um surrealismo ingénuo e cores berrantes. Não mais poderei comprar os unicórnios simpáticos e os crocodilos ameaçadores, que lá adquiri nos anos 70/80, a um barrista talentoso, que os expunha no murete de Bayswater Road. Saudoso, contemplei o nº 100, da extensa avenida, onde sir John Barrie (1860-1937), no início do séc. XX, imaginou a saga de Peter Pan.
Inverness Terrace continua pacífica, mas pejada de carros e cheia de sacos de lixo em volta dos candeeiros altos. E Queensway está mais barulhenta, luminosa em néons comerciais de lojas e restaurantes, de supermercados e cafés. O Royal Mail, agora privatizado, ao fundo, perto do Whiteleys (restaurado por fora, continua decadente, por dentro), com atendimento indiano (?), estava sujo e desarrumado de interiores. E muito mais caro: um postal para a Europa precisa de um selo de 1,17 libras, para seguir viagem. Que desaforo!
Só o Hyde Park é que continua um encanto. Com os seus esquilos, bandos de corvos* e patos selvagens. Haja Deus! e sua Majestade britânica, que continua a chefiar essa insólita igreja anglicana e insular.
Nem tudo se perdeu, felizmente...

* Aprendi, há dias, que a um grupo de corvos, se pode chamar a murder of crows, desde finais do séc. XV. Aqui fica, em partilha amiga, para amigos e estimadas visitas, que cá venham.

sábado, 14 de outubro de 2017

Interlúdio 61


Não tenho a menor dúvida. A frase que mais ouvi, nestes últimos dias londrinos, mas com exemplar pronúncia oxfordiana, foi: Mind the gap!

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Elgar / Barenboim / Du Pré

É a terceira vez que o Arpose acolhe o magnífico Concerto para Violoncelo do inglês Edward Elgar (1857-1934), composto em 1919. Só que, desta vez, em versão integral, dirigido por Daniel Barenboim (1942), com uma interpretação primorosa de Jacqueline du Pré (1945-1987).
Com uma duração de pouco mais de meia hora, é para se ir ouvindo...

P.S.: é possível que o Arpose entre de férias por alguns dias. Postar sempre, também cansa.

Agendas


À comunicação social portuguesa saiu a sorte grande, embora por falta de organização e metodologia profissional e jornalística, ande por aí como uma barata tonta, sem saber a quem há-de dar prioridade e atenção. Não bastava a Catalunha. Eis que lhe chegam a Filosofia e a Justiça, geminadas e em simultâneo, mais a temática fluvial em contraponto com a hagiográfica, pelas bandas da Buenos Aires partidária. 
Coitados dos nossos pobres tontos plumitivos, que mal conseguem dar conta do recado. E da fartura que lhes caiu no colo... 

Nota: admito o lado críptico deste poste. Aconselho a leitura das etiquetas, para melhor esclarecimento.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Memorabília útil


Não há nada como o papel, em vez do digital, para dar consistência aos percursos. E o mais recente destes mapas tem mais de 30 anos... Mas já lá estavam Bayswater, Picadilly, Queensway, a Tate.

Leilão


Mais um leilão de livros, manuscritos, e não só, promovido pela Livraria Olisipo, no Palácio da Independência (às Portas de Sto. Antão), nos próximos dias 16 e 17 de Outubro de 2017.
Do acervo, rico em obras raras, nomeadamente, de poesia, destaco os seguintes lotes e estimativas:

368 . Manuel da Fonseca - a 1ª ed. de Seara de Vento (1958), com dedicatória a João Vilaret. Com previsão de venda entre 75/150 euros.
410 . Almeida Garrett - Viagens na Minha Terra, na sua edição original (1846), em 2 volumes, com uma estimativa de 150/300 euros.
632 . Francisco Manuel de Melo - Cartas Familiares (Roma, 1664), entre 300 e 600 euros.
744 . Fernando Pessoa - Mensagem. Primeira edição (Lisboa, 1935), enriquecida com dedicatória do Poeta ao pintor Eduardo Malta. Com uma previsão de venda entre 6.000 e 10.000 euros.

Considerações posteriores e a propósito: não destaquei os livros acima referidos por serem caros, mas por serem obras fundamentais e essenciais da literatura portuguesa. Neste leilão, há livros bastante mais baratos e até alguns volumes de Herberto Helder - normalmente caro - com preços justos.
Abre hoje a Feira de Frankfurt, com a presença paternal do Júpiter francês e da Mutti germânica. As recomendações de compra, quanto a livros saídos ou a sair, na imprensa vendida e especializada (?), são abaixo de cão. Anda tudo pelo light e pelo chinelo...
Deus nos valha! Que falta nos fazem o Marcel Ranicki!, apesar de reaccionário. Para não falar do honesto Gaspar Simões, para aconselhar a gentalha que compra tudo o que lhe recomendam, sem qualquer critério crítico. E se guia pelos best-sellers dos jornais manhosos portugueses...

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Glosa 10


Hoje, no jornal Público, Rui Tavares dedica, a propósito da Catalunha, o seu texto de crónica à singularidade de Portugal ser o único (?) país europeu de fronteiras definidas, desde longe, e sem quaisquer tentações de derivas centrífugas, dentro do seu território.
Realmente, foi bom termo-nos arrumado em 1249, através das últimas conquistas de praças algarvias (Faro, Loulé, Albufeira...), por parte do nosso único rei bígamo, D. Afonso III (1210-1279). Mas não devemos esquecer o sábio D. Afonso X, de Leão e Castela, que, generosamente e num gesto de avô babado, desistiu das pretensões ao Reino dos Algarves, a favor do jovem príncipe D. Dinis, seu neto. Pelo tratado de Badajoz, em 1267.
Ora, imagine-se que D. Afonso X não tivesse tido esse rasgo de generosidade familiar... Ou, até mesmo, que algum Filipe castelhano e futuro se lembrasse de reclamar da defenestração abusiva do colaboracionista Miguel de Vasconcelos, nos idos de 1640... Lá tinhamos o caldo entornado.
Por agora, mais vale esquecer Olivença, assim como a pouco lembrada tomada de Madrid e Salamanca, pelo nosso valoroso Marquês das Minas, em 1706. Mais vale ficarmos calados e aconchegados neste nosso pequenino rectângulo peninsular, quase milenar e sossegado...


domingo, 8 de outubro de 2017

Divagações 126


As relações entre os seres humanos poderiam ser simples, lineares e claras. Nem sempre o são. Complicam-se com os afectos, o dinheiro, a emulação profissional, as redes de poder. Um homem sozinho pode ser mais forte do que um homem acompanhado: porque não tem de partilhar e acertar as decisões em conjunto, por um só diapasão, a que nem sempre se dá por inteiro.
Se não subscrevo a afirmação de Sartre que o inferno são os outros, também não advogo, ingenuamente, a tranquila paz solitária do ermita, sujeita a alumbramentos celestiais despidos da mais dura e crua realidade. Porque há o sal grosso que faz parte da vida, e que nos faz agarrar, embora com angústia, e talvez suor e sangue, ao cerne amoroso de viver, na esperança de dias melhores.

Filatelia CXX


Tal como para Portugal, também para a Inglaterra, a Marinha sempre teve grande importância. Quer a Mercante, quer a de Guerra. Sobretudo, enquanto foram impérios... Mas a temática Navios tem espaço considerável na filatelia de ambos os países, ainda hoje.
Em 1985, tive ocasião de visitar, em Greenwich, o clipper (navio à vela, com andamento veloz) Cutty Sark, que se encontra em doca seca, no Museu Marítimo da cidade. Com interiores lindíssimos, em madeira trabalhada, foi um dos últimos veleiros do chá. Fazendo carreira entre a China e a Inglaterra.
Mas, com o advento dos navios a vapor e a abertura do Canal do Suez, os veleiros perderam importância neste comércio e o Cutty Sark foi vendido, em 1895, à firma portuguesa Joaquim Antunes Ferreira & Companhia, por 1.250 libras esterlinas. Tendo sido construído, na Escócia, em 1869, o veleiro conservou-se em mãos portuguesas até cerca dos anos 30, voltando, depois, a ser comprado pela Grã-Bretanha, restaurado e colocado no Museu de Greenwich, em 1954.


Em 1969, pelo seu centenário, os Correios ingleses emitiram uma série de 6 selos, em que consta (terceiro selo à direita, na segunda linha da imagem) o famoso Cutty Sark, luso-britânico. Que sofreu ainda 2 incêndios, na doca seca, em 2007 e 2012, mas que já se encontra restaurado. Por mera curiosidade, lembro que o clipper deu nome a uma famosa marca de whisky.


para MR, no seu Prosimetron, que lhe apetecia, hoje, andar de barco...

Um ditado português muito pouco urbano...


Mulher que sempre ri, homem que sempre chora e mancebo cortês, merda para todos três.

sábado, 7 de outubro de 2017

Uns pozinhos de alegria...

Miscelânea descentrada


Levei cerca de uma hora a ler um hebdomadário e um diário, saídos hoje, ainda frescos.

Haverá alguém que imagine o Prémio Nobel a ser atribuído a John Le Carré? Creio que não.

Premeia-se por contraste, para tomar posição. Veja-se o da Paz, ou a deslocação do Sabadell...

Sempre Verão, também cansa. Porque conheço algumas pessoas que aspiram a ver a chuva, de casa.

Os 2 jornais, que li, recomendam quase só vinhos de 9 a 30 e tal euros. Para quem?

Recordo que, nas Cooperativas do Douro, as uvas se estavam a pagar a menos de 1 euro, o quilo.

No "Expresso", há dois encartes, grossos, sobre Angola. Vingança do chinês, ou subserviência lusa?

Vou reler o último livro de Gastão Cruz (Existência) para arejar a vista e mudar de alma.

Que, como dizia um poeta inglês: a esperança terá de ir para outras coisas.

Até porque Londres e o seu hipotético nevoeiro não me vão, seguramente, mudar a vida.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Formar o gosto


Há dívidas que nunca mais se pagam. E eu tenho uma delas para com Óscar Lopes (1917-2013).
Não tanto pelos livros que publicou, de que se destaca a História da Literatura Portuguesa, mas sobretudo pelo seu magistério crítico que, ao longo dos anos, foi exercendo, às terças-feiras, no suplemento literário Cultura e Arte, de "O Comércio do Porto".
Pelas suas recensões semanais fui apurando o meu sentido crítico, aprendendo a separar o trigo do joio literário, a melhor compreender a prosa e a poesia portuguesa, que, então, se ia publicando. A agudeza das suas sínteses, a fina intuição que não excluía o afecto (o texto à morte de Mário Sacramento, é um magnífico exemplo de amizade), deixaram marcas na minha memória.
Conheci-o pessoalmente já tarde, por intermédio do nosso comum amigo António, num dia atribulado de lançamento de um livro, em Lisboa. Era a simplicidade em pessoa, apesar da sua imensa sabedoria.
Aqui o quero lembrar, 4 dias depois da passagem do centenário do seu nascimento. Com gratidão.


Do que fui lendo por aí... (13)


Por uma daquelas razões singulares, ou coincidência frutuosa, encontro-me a ler, em locais diferentes, dois diários da mesma época (1939-1945), escritos por dois intelectuais (Gide e Jünger), em França. Se nas notas do ocupante alemão predomina uma atmosfera de tranquilidade, apenas interrompida por alguns sonhos perturbantes, que ele descreve ao pormenor, nas palavras sobre o dia a dia do francês ocupado (Gide) perpassa uma fina angústia que o leva a abordar circunstâncias dramáticas do passado (curiosamente, ainda hoje actuais), sobre a liberdade. Vou assim dar a palavra ao escritor francês, em dois pequenos extractos:


"... Os judeus, também, de oprimidos se transformaram em opressores, como sucede, parece que necessariamente, logo que as convicções religiosas contam com o apoio do poder - digamos ,simplesmente, se têm poder. ..."
...
"... Texto da excomunhão pronunciada contra Spinoza, a 2 de Julho de 1656: «Que ele seja amaldiçoado dia e noite... Que Deus não possa nunca perdoar-lhe. Ordenamos que ninguém tenha comércio com ele, por palavra ou por escrito, que nunca ninguém lhe dê mostras de amizade, dele se aproxime ou habite sob o mesmo tecto, que ninguém leia nenhuma obra escrita ou composta por ele."
...


André Gide (1869-1951), in Journal - 1939-1949 (Pléiade. 1955).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Os sentidos do Nobel


Parece que a Academia Sueca voltou a privilegiar o olhar, em detrimento do ouvir.

Uma preciosidade...

... que, 107 anos depois, ainda vai funcionando...

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Há quase 50 anos...


Não imagino como o governo do sr. Macron tenciona comemorar, no próximo ano, o meio século das movimentações estudantis e operárias de Maio de 1968, em Paris. Mas há datas que são sempre difíceis de tentar contornar, rasurar ou não referir. Emmanuel Macron (1977) estará, com certeza, à vontade, porque, como ainda não era nascido não se deve lembrar dessas convulsões pelas ruas de Paris... 



Daniel Cohn-Bendit (1945), hoje, tranquilo reformado do Parlamento Europeu, que foi figura cimeira e carismática nessa época, fará certamente algumas declarações solenes e importantes sobre a efeméride. Talvez aproveite até a oportunidade (quem sabe?) para lançar algum livro de memórias. Quanto a Jean-Luc Mélenchon (1951), que, dada a tenra idade, teve um papel menor, não deve porém ficar calado...
Mas o que resta dessa época de som e fúria, nas páginas cépticas da História, são sobretudo alguns slogans pitorescos, como: "É proibido proibir", "A ortografia é um mandarinato", "A sociedade é uma flor carnívora"; ou esse saboroso diálogo, que reproduzo acima, entre Cohn-Bendit e o ministro francês da Juventude, na altura.
Tudo o resto acabou por se esfumar no tempo e nas viradeiras sucessivas da história contemporânea francesa.
Que De Gaulle repouse em paz!

Uma fotografia, de vez em quando... (93)


Incondicional fervoroso do preto e branco, o fotógrafo finlandês Pentti Sammallahti (1950) tem, presentemente, no Pôle Photographique, de Estraburgo, uma ampla exposição da sua obra. A mostra estará patente ao público até 26 de Novembro de 2017.
O seu motivo mais frequente são os animais, em plena liberdade. Mas o seu enquadramento não exclui os grandes espaços abertos e uma estética linear e despojada de qualquer rodriguinho decorativo. Em que a beleza simples ganha todo o horizonte, numa harmonia perfeita e singular.


Revistas Regionais


Estas publicações de índole regional reservam-nos, muitas vezes, curiosidades e boas surpresas. Recentemente, adquiri o primeiro número dos Estudos de Castelo Branco, de que já possuía  o número 25, de 1 de Janeiro de 1968. Quer um, quer outro contêm colaborações de qualidade que se distribuem pela História, Epistolografia, Literatura, Tradições e Costumes,  etc..



A minha maior surpresa foi ter encontrado no primeiro número (de 8 de Junho de 1961), dois colaboradores que ultrapassaram, pela sua actividade, o âmbito regional. Trata-se de Maria Alberta Menéres (1930) e do seu ex-marido E. M. de Melo e Castro (1932). A primeira colaborou com 3 poemas (inéditos?), de que reproduzo um deles.
E. M. de Melo e Castro subscreve um pequeno ensaio sobre poesia, de que transcrevo o início.



Mas não se esgota, na colaboração destes dois conhecidos poetas, o interesse destes Estudos de Castelo Branco, recheados de artigos e textos de muito boa qualidade e com inegável interesse geral.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Pinacoteca Pessoal 129


Aos que nos estão mais próximos, muitas vezes, nem damos por eles.
E eu nunca me lembrei de  incluir o artista francês nesta pessoal temática de Pintura.
Henri Matisse (1869-1954), a quem eu me referia,  dizia que um quadro era uma lenta deliberação.
Os vários retratos da sua filha Marguerite têm atenuantes compreensivas e afectuosas para as suas  experiências e a justificação da sua reflectida tirada, até pelo acompanhamento das diversas idades da sua descendente. Mas penso que ele se referia a cada um dos quadros, em si, fosse qual fosse o motivo que desse origem ao acto da criação.



No entanto, os cerca de 50 esquissos, que fez, sobre a italiana Laurette (ou Lorette), para além das várias telas que a têm como motivo, comprovam indiscutivelmente a sua afirmação, de experiência feita. Na elaboração pictórica de um mesmo rosto, através das suas múltiplas perspectivas. E também idades e momentos próprios. Do pintor e do modelo.
Não disse o crítico de arte Andrew Forge (1923-2002):... porque uma paisagem por Van Gogh ou uma natureza morta são também um auto-retrato ?



Informa-nos o TLS (nº 5972) que, na Royal Academy of Arts (Londres), estará patente uma exposição de Henri Matisse, até 12 de Novembro de 2017, subordinada ao tema: Matisse in the Studio. Apesar do preço de ingresso ser exorbitante (17 libras inglesas), penso que não irei perdê-la...



Nota: o retrato de Matisse, que encima este poste é da autoria do seu amigo André Derain (1880-1954).  

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O desforço


Creio que o nosso espírito democrático ainda é uma criança e julgo também que uma boa parte dos nossos políticos reage, normalmente, após uma vitória ou derrota, ao nível chinelístico do futebol. É certo que eu não tenho grandes ilusões sobre as qualidades filosóficas dos portugueses, mas tenho sempre a expectativa de que, um dia, sejamos capazes de raciocinar sobre a realidade, com alguma, mínima, isenção. Provavelmente, já não será no meu tempo de vida, mas faço votos para que não demore muito a atingirmos a maturidade democrática. Assim, gostaria de não ter presenciado:

1. O independente que ganhou a Câmara do Porto, no momento de vitória, ter feito um discurso de desforço na melhor esteira cavaquista. Esperava-se outra elegância de um Tio tripeiro. Embora eu saiba  também que não há só Tios, no Sul... 

2. Que os clarividentes eleitores de Oeiras tenham dado razão à máxima: O crime compensa.

3. Depois de tanta fidelidade canina, o pafunço-mor não merecia a deserção dos rangéis, do bochechudo de barba por fazer do jornal Público, nem sequer a estocada final do Gand'a Nóia, na televisão. Embora seja normal os ratos deixarem o navio, antes deste se afundar por completo.


P. S. : Já agora, limpem-me os outdoors, antes que venha a chuva! Não justificam a memória futura!

Curiosidades 66


É conhecida a atenção e o respeito que, normalmente, os ingleses têm pelos animais, sobretudo pelos de estimação. Mas também há fenómenos colectivos de muito difícil explicação, projectados por circunstâncias, talvez, de pânico colectivo ou de contaminação psicológica, quase irracional.
O penúltimo TLS (nº 5973) refere que, na primeira semana da II Grande Guerra, em 1939, sobretudo em Londres, houve um massacre, através da eutanásia provocada pelos donos, de cerca de 400.000 cães e gatos, o que representava 1/4 da população destes animais domésticos, na capital inglesa.



O facto não se deveu a nenhuma disposição legal do governo da altura e também nem sequer tinham ainda começado os horrores dos bombardeamentos nazis da Blitzkrieg. O mistério desta acção colectiva dos londrinos persiste. Em sentido contrário, contavam-se os casos do embaixador alemão Ribbentrop que, ao deixar a Inglaterra, abandonou o seu cão, e do embaixador inglês Neville Henderson que, ao abandonar Berlim, trouxe consigo o seu cão Hippy, de estimação - tendo sido destacado o facto, elogiosamente, na imprensa britânica da época, até pelo contraste.



O massacre dos cães e gatos londrinos, de que falámos acima, embora assistido por elas, não contou com a aceitação das autoridades veterinárias britânicas, que se limitaram a um acompanhamento caridoso, para que esses animais domésticos não sofressem com a eutanásia. E sabe-se que muitos dos animais sobreviventes foram, posteriormente, uma ajuda preciosa na descoberta dos seus donos, soterrados após os bombardeamentos, sendo até alguns deles condecorados, depois.