quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Música

Este segundo movimento da Suite BWV 1068, de Bach, quase toca aquilo que imagino ser o sublime. Tudo depende dos intérpretes. Creio que os Voice of Music cumprem, pelo menos, bem.
Aqui fica (pela segunda vez, no Arpose), no Dia Internacional da Música.

Afinidades


Estas fotografias da norueguesa Hebe Robinson (1970) pertencem a um ciclo sobre Lofoten (Echoes of Lofoten), pequena área isolada da Noruega. A artista sobrepôs, sobre paisagens desertas e naturais da região, pequenas fotos de personagens humanas de há mais de 60 anos. Gostei muito do resultado obtido. 
Mas uma destas fotografias (a primeira) tem, por trás, uma explicação, de como eu cheguei até ela.
A única maneira de aderirmos por inteiro a uma ideia é concebermo-la nós próprios. O mesmo poderá acontecer com um cozinhado, a que demos um pequeno toque pessoal de gosto: nas omoletas, costumo ripar em tiras duas ou três folhas de hortelã, por exemplo...
Quem quiser, também, um blogue a seu modo, tem de o fazer. Não quero dizer com isto que eu não tenha afinidades com os blogues que acompanho. Mas nem sempre estou com eles, de alma e coração, inteiramente. Com alguns, estou mesmo muito próximo. Mas são poucos. Razões de sentido crítico, tom, enquadramento da estética iconográfica, temas tratados, excesso de imagens em prejuízo de texto num neo-riquismo visual desabusado, às vezes, me separam.
Ora, de há uns dias a esta parte, o Arpose tem recebido um(a) visitante que lhe chega por via de um outro blogue que segue o nosso. Por curiosidade, fui lá, a esse blogue, e as afinidades eram muitas e próximas, excepto  talvez nas escolhas musicais - questões geracionais, provavelmente... Mas em quase tudo o resto, havia sintonia: em poesia (António Reis, por exemplo), em prosa (citações do Desgraça, de Coetzee), a leitura referenciada do TLS, o sentido crítico da ficção escrita do(a) autor(a), o bom gosto estético geral desse blogue que, infelizmente, foi de curta duração, mas de grande qualidade e coerência. Não lhe vou referir o nome por discrição. Mas reproduzo essa tal fotografia de Hebe Robinson, que lá descobri, ao cimo deste poste.
Acrescentando uma segunda foto que, essa sim, fui eu a escolher. 
In memoriam de um(a) Blogger anónimo(a) e desconhecido(a).


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Atrás de grades...


Não passará despercebida, a quem passar pela rua de S. José (Lisboa), um árvore insólita engaiolada numa estrutura metálica. É um dragoeiro, planta tão ou mais velha que as figueiras e oliveiras, na história do mundo, mas muito mais rara em Portugal. Mercê de umas obras de Santa Engrácia, que se eternizam nessa rua, a árvore foi protegida para lhes sobreviver (?), entretanto, e enjaulada.



Num dos seus passeios lisboetas, HMJ colheu este instantâneo pitoresco da base de uma grande árvore, no Jardim de Santos. As raízes, à superfície, lembram répteis fossilizados pela sua imponência e gigantismo. E graças à perspectiva das grades do jardim também parecem ter sido enjaulados.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Mais um Fado

Este fado, algo insólito e heterodoxo pelo tema, com letra de Gabriel de Oliveira sob mote e versos de Augusto Gil (1873-1929) e música de Frederico de Brito, dá pelo nome de Maria Madalena. É, de algum modo, o contraponto lisboeta do Samaritana, fado de Coimbra (com letra de Álvaro Cabral) que, até 1974, estava proscrito das serenatas públicas na cidade do Mondego. Só se podia ouvir no recato das Repúblicas conimbricenses - onde a Censura não entrava - como de facto o ouvi por duas vezes, pelo menos. Por ser um dos meus poucos fados-fetiche, arquivei-o no Arpose, em poste de 12 de Agosto de 2010.
É tempo, no meu entender, de dar voz a Lucília do Carmo (1919-1998), nesta belíssima interpretação de Maria Madalena, incluindo-a no Blogue.

domingo, 19 de novembro de 2017

V. A.


Vale bem a pena acompanhar, mesmo que à distância, as novas produções que as Porcelanas Vista Alegre vão criando, engenhosamente, ao longo do tempo. As suas montras, ao Chiado, são sempre um motivo de alegria, júbilo e prazer estético para o olhar - mesmo que não entremos para comprar. Marca nacional de prestígio, mesmo além fronteiras, criada em 1824, está prestes a completar o seu bicentenário.



Este encarte, de que reproduzo algumas imagens, não é já muito recente. Mas este Veado Vermelho, com uma produção de apenas 190 exemplares, é um fino exemplo da qualidade dos produtos da Vista Alegre.
Acresce a particularidade de eu só há poucos anos ter sabido que as presas dos veados caíam e se renovavam, de tempos a tempos. Renovo e re-criação de que também as Porcelanas Vista Alegre são um magnífico exemplo.


"Presunção e água benta, cada um toma a que quer"


Em abono da sua qualidade artística, embora com uma ponta de ironia, em 1977, o actor norte-americano Joseph Cotten (1905-1994) afirmava:
"Orson Welles considera Citizen Kane como o seu melhor filme, Alfred Hitchcock opta por Shadow of a Doubt e Sir Carol Reed escolhe The Third Man - e eu estou em todos eles."


sábado, 18 de novembro de 2017

Do que fui lendo por aí... 14


O aprendiz de versinhos martelou o seu poema e atramancou-o o melhor que sabia e podia: juntou tábuas e imagens, polvilhou-o de sugestões levemente picantes, que ele achou sensuais, mas que eram pobrinhas, apenas, e ingénuas; e colocou-o no seu blogue (agregado às centenas que lá tinha), junto com uma gravura de mau gosto de um vulto soltando um pássaro bisnau, em fundo escuro...
Depois, vieram dezasseis comentadeiras, mais um comentador, e todos eles acrescentaram, de comentário emotivo, uma pretensa metáfora - é certo que cada vez mais pobres - com mensagens salvíficas de esperança ou máximas supinas de intenção moralizadora, em forma de versinhos em prosa, foleiros. Glosaram até à exaustão possível os versinhos e mandaram beijinhos repenicados de ternura, no final.
Silencioso, e satisfeito, o aprendiz de versinhos recostou-se na cadeira e começou a ser feliz.


Nota pessoal : desculpem-me a maldade, porque hoje é sábado...

Revivalismo Ligeiro CCLXXIV

Um sucesso dos anos 30 italianos, interpretado por Carlo Buti (1902-1962), que eu  me fartei de ouvir nos anos 50/60, e que Pavarotti ainda interpretou nos anos 90, com agrado do público, em Nova Iorque.
Mas que bela voz tinha Carlo Buti!...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Divagações 127


Era Harold Bloom que falava da angústia da influência, querendo dizer que nenhum artista se pode libertar, inteiramente, da herança de outros, por muito original e inovador que seja. E a afirmação tanto poderá servir para escritores, poetas, como para escultores e pintores. Mesmo para outros artífices de profissão mais modesta.
O tema insólito e anódino de uma carcaça de animal abatido, para consumo, que, aparentemente, não apresenta nem desperta grandes sentimentos estéticos, foi usado por dois pintores, muito diferentes, com um intervalo de quase 300 anos. Rembrandt (1606-1666) pintou o quadro (carcaça de bovino) entre 1640 e 1645; a tela de Soutine (1893-1943) foi executada (neste caso, a carcaça de um cavalo) em 1925.


Uma fotografia, de vez em quando... (95)


Era uma vez, assim... antes do Sol nascer, aí pelas 6h45, em Lisboa.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Recomendado : setenta e dois - Óscar Lopes


Lançada no mês passado de Outubro, em homenagem a Óscar Lopes (1917-2013), pela passagem do centenário do seu nascimento, esta fotobiografia (Óscar Lopes - retrato de rosto), orientada por Manuela Espírito Santo, sob o patrocínio da Câmara de Matosinhos, é um documento precioso. Não só pela copiosa iconografia, mas também pela correspondência de e para Óscar Lopes, reproduzida. E pelos testemunhos muito diversos e importantes, aí inseridos.

agradecimentos fraternos a A. de A. M..

Bach / Tyler

arte menor (27)


Propósito


Reentrar na quietude da paisagem,
moldura serena do verde e das casas
que desistiram da viagem
e abandonaram as aves ao seu curso
de aventura irregular pelo infinito.



Sb., 29/10 - Ch., 15/11/2017

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Bibliofilia 158


Eram de grande apuro gráfico e muito bom gosto estético, as publicações da Editorial Inova (Porto), que se iam editando sob a batuta engenhosa de Cruz Santos. A colaboração de Pintores e bons Gráficos era constante, dando uma garantia de qualidade aos livros que a Inova foi publicando. Também os colaboradores literários asseguravam um contributo importante. A orientação artística era de Armando Alves.



Esta colecção Indícios de Oiro era  dirigida, do ponto de vista literário, pelo poeta Egito Gonçalves. O terceiro número da série foi dedicado a Eugénio de Andrade (1923-2005). Era uma edição bilingue, com os poemas traduzidos por Carlo Vittorio Cattaneo para a língua italiana. Os desenhos ficaram a cargo de Angelo de Sousa, em boa hora. E a obra publicou-se em Setembro de 1974.



O meu exemplar, assinado, é o nº 165 (como se pode ver pela terceira imagem do poste), dos apenas 310, que foram publicados. Apesar de ter sido comprada usada, a obra está como nova.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Lembrete 60


Nem sempre as decisões são fáceis. Mas esta, de José de Guimarães (1939), parece-me, pragmaticamente, corajosa e feliz. Hoje, institucionalmente concretizada, pelas 18h00, na BNP.


Liszt / Horowitz

Retratos (18)


Há pessoas e coisas que, com o tempo, perdem a sua carga evocativa e se desvalorizam. Outras que se robustecem por força das comparações que vamos fazendo, verificando o quanto lhes são inferiores as que, depois, viemos a conhecer. Casos em que até passam a ser o modelo da exemplaridade de uma função determinada, para nós.
Ao longo da minha vida, assisti a vários leilões, sobretudo de livros, e com maior intensidade entre 1976 e o dobrar do século. Hoje, são residuais as minhas presenças nestes acontecimentos mundanos.
Se o espaço onde decorre um leilão é importante, a qualidade do leiloeiro (pregoeiro) é fundamental. A voz, bem timbrada e clara, é um requisito imprescindível, antes de mais. Mas também uma grande capacidade de atenção que permita, ao leiloeiro, atender ao mais leve sinal de lance, que algum cliente, por mais tímido ou discreto, faça. E discernir, na quase simultaneidade eventual de lances, qual terá sido o primeiro a fazê-lo. Finalmente, a autoridade e presença para dirimir conflitos suscitados entre licitadores agressivos.
De tudo isto era possuidor, na mais alta craveira, o sr. David Pedro, que deixei de ver, há muito, nos leilões que se faziam em Lisboa. Embora baixo de altura, tinha autoridade com elegância, voz claríssima e bem articulada, e uma urbanidade a toda a prova, mesmo em situações muito conflituosas. Um exemplo perfeito pelo seu profissionalismo. Único, tanto quanto me lembro. Além disso, tinha uma boa memória: raramente se esquecia do nome de um cliente habitual nos leilões a que presidia.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Citações CCCXXX


O Comércio liga toda a humanidade numa fraternidade comum de mútua dependência e interesses.

James A. Garfield (1831-1881).

domingo, 12 de novembro de 2017

Iconografia moderna e laica (26)


"E disse (Jesus) aos que vendiam pombas: «Tirai isso daqui!
 Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio.»"

João, 2, 13-25






Comentário pessoal: para lá da histeria desmedida, originada, sobretudo, em algumas redes sociais infantis e nalguns blogues mais desmiolados de virgens ofendidas, creio que valerá a pena ver este episódio com alguma frieza e aduzir as razões a montante que o permitiram: o despacho do Secretário de Estado da Cultura (Barreto Xavier) - numa altura em que o anterior Governo queria pôr tudo em patacos; a jusante, a figura eminente e insensata da Administração Pública que autorizou o ágape, no local. E talvez seja útil lembrar que o uso do Panteão Nacional, não foi inédito, para este fim. Ainda há cerca de um mês (16 de Outubro de 2017) a NAV (Navegação Aérea de Portugal) usou o espaço para os mesmos efeitos de restauração...
Por que razão essas virgens ofendidas do costume, nessa altura, não se teriam queixado e escandalizado?

Lembranças de Londres (por entre Filatelia e Arte)


Faço, quase sempre, uma boa, embora demorada, digestão feliz das viagens que empreendo. Ainda que viajar me seja cada vez mais desagradável, pelo desconforto físico e mental das partidas e chegadas, das malas a carregar e dos processos burocráticos que lhes estão associados. Mas também pelo balbuciar inepto e inicial das primeiras frases gaguejantes em língua estrangeira, quando vou para fora de Portugal.



O dia (17/10/17), razoável para um Sol londrino, intermitente, não estava, de modo nenhum destinado à Arte, porque o tinha previsto para vir a ser consagrado a prosaicos assuntos de Filatelia. Dois números de rua, na Strand, me ocupavam o espírito: o nº. 399 (da Stanley Gibbons) e o 99, que ainda devia albergar o Stamps Centre, onde, em 1976, eu tinha comprado, afortunadamente, a um comerciante de origem polaca, um belíssimo lote de selos clássicos portugueses, por 50 libras. Mas, e como diz o povo, "o homem põe e Deus dispõe."



Saí na estação de Embankment e, atravessando uma rua transversal, dirigi-me para a Strand, paralela. O número 399 foi fácil de encontrar. Lá comprei o último Stanley Gibbons Stamp Monthly, com um interessante estudo sobre as emissões de selos do reinado de Jorge VI, e saí à procura do número 99, que sempre pensei ser no mesmo lado da rua, por também ser número ímpar, como acontece em Portugal. Não era, era quase em frente, mas só o vim a descobrir muito mais tarde, depois de passar pelo retrato do português Helder Macedo, no meio de vários outros professores ilustres, em fotografia de corpo inteiro, nas vitrines do King's College, e de ter visitado uma maravilhosa exposição na Somerset House.



Mas vamos por partes. Depois de calcorrear a Strand até ao fim, desenganado de encontrar o Stamps Centre, na volta, pelo outro lado da rua, por mero e feliz acaso deparei-me com um anúncio discreto, no passeio, a informar sobre uma exposição de pintura subordinada ao tema promissor de Da Renascença ao Impressionismo, na Courtauld Gallery que, integrada na Somerset House, ocupava seis salas, com pinturas esplêndidas de grande qualidade, e que iam de Cranach a Monet, passando por Gauguin e Van Gogh.



Tenho de confessar que nunca, em tão breve espaço de instalações, eu vi reunidas tantas obras-primas. O Adão e Eva, de Cranach, que iniciava a mostra, embora numa tábua pequena, era de uma perfeição admirável. Nunca também pensei lá encontrar  uma das versões de Os Jogadores de Cartas, de Cézanne, e, muito menos, uma variante primeira (?) de Le Déjeuner sur l'Herbe, de Manet, aparentemente inacabada e ainda algo incipiente. Mais O Balcão, de Renoir, um auto-retrato de Van Gogh e vários Degas. Só o quadro de Cranach, deixou-me fascinado, em frente dele, por uns bons cinco minutos de alumbramento e prazer...



Mas o que mais me surpreendeu, na verdade, foi uma escultura magnífica de Gauguin, para além do Nevermore, cuja obra eu pensava ser apenas constituída por pintura. O artista terá feito, em mármore, apenas duas esculturas. Uma do filho, Emil, e outra da esposa dinamarquesa, Mette. Foi esta última, de 1877, e única, que eu pude admirar na Courtauld Gallery, da Somerset House. Há um aspecto muito curioso no olhar da mulher. Normalmente - creio - na maioria dos rostos esculpidos, o olhar inclina-se para baixo ou está, no plinto que o suporta, à altura do olhar do observador visitante. No rosto de Mette, porém, o olhar dirige-se para cima, numa ascese que Gauguin quis, talvez, sugerir.




Só por esta escultura de Paul Gauguin valeria a pena eu ter entrado na Courtauld Gallery, da Strand, nessa manhã de  17 de Outubro. de 2017, em Londres.

Comecei a tarde, já passava muito do meio-dia, a almoçar uma dose generosa de Fish and Chips, numa esplanada da Queensway. Que o Sol tinha aberto, esplendoroso, numa solidariedade alegre de beleza...

sábado, 11 de novembro de 2017

Variações sobre um tema de Händel

Das pequenas composições de música clássica, sou particularmente sensível a algumas peças de Bach, Pachelbel, Liszt, Schubert. E à Sarabanda, de Händel, que Kubrick utilizou no filme Barry Lyndon, ajustadamente. E que até já consta, em vídeo, no Arpose.
O que eu não conhecia eram estas 13 variações, em guitarra antiga, executadas, com primor, por Peter Blanchette (1958-2015), que considero uma pequena obra-prima. Pois aqui ficam. Em dia festivo de aniversário do nosso Blogue.

8 anos : um balanço


Há quem leve o seu blogue a sério, quem o leve a brincar. Quem lhe ponha exigência e quem  se balde, de forma ligeira, divertida ou, às vezes, infantil.  Eu lembro-me quase sempre de Ricardo Reis: "...põe quanto és no mínimo que fazes." E, às vezes, é quase um castigo para lançar mais um poste no Arpose. Mas já lá vão mais de 9.500 postes, nestes 8 anos de exercício, até agora consistente. Como dizia Machado : o caminho faz-se andando. Não hipoteco nem comprometo o futuro por estados de alma momentâneos, nem por restrições à minha liberdade. Até porque as compensações de uma exposição pessoal, em visitas e comentários retributivos são pouco mais do que exíguas. Mas também mal vai quem, sendo minimamente generoso nas partilhas, espera gratificantes recompensas.
Já vi muita gente desistir, no decurso destes 8 anos. Dos 11 blogues que acompanho, vários se apagaram e outros são bissextos, presentemente, ou asseguram uma presença activa meramente residual, que parece prognosticar a morte absoluta a médio prazo. (Entretanto, vou seguindo mais 5 blogues, de forma livre e descomprometida - por não os ter inscritos - para compensar o vazio deixado...) Pragmaticamente, também não quero omitir a realidade crua dos números: o Arpose, que já teve uma média de 360 visitas, tem hoje pouco mais de 70 visitantes diários, dos quais apenas 11 ou 12 são presenças fiéis e constantes, todos os dias. Assim seja! Porque a vida também é isso - uma espécie de ilha com mais melancolia do que júbilos e com mais ligeireza do que fidelidade.
E talvez a conquista maior, mais sábia e difícil de qualquer ser humano seja mesmo a modéstia do silêncio, como matriz suprema da Criação ou, em termos para-científicos, do momento antes do Big Bang inicial. Creio que ainda não estou preparado para isso. Assim, há que celebrar este 8º aniversário do Arpose, mas com singeleza.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Apontamento 108: RECLAM - 150 Anos de uma editora alemã de referência




Por motivos que não vêm ao caso, tenho andado a reler livros que me orientaram e formaram numa determinada época. No meio deste “reviver”, encontrei a informação sobre os 150 anos da editora alemã RECLAM com os seus livrinhos baratos, amarelos a partir de uma dada altura, como se pode ver pela imagem acima.

O primeiro volume publicado, em 1867, era, quase obviamente, o Fausto, de J.W. von Goethe. A actividade editorial, que neste momento abarca 3500 títulos, abrangia o que se podia chamar um “cânone literário” ao gosto do leitor. Da Antiguidade Clássica à literatura moderna, mas também obras de Filosofia, História, Arte e Música, os alunos de liceu, como eu, forneciam-se do essencial para a leitura escolar e, pela facilidade de acesso físico e económico, andávamos a “cheirar” um pouco de tudo. Ou por sugestão de alguém, ou por impulso de querer ultrapassar a barreira da ignorância perante autores e títulos desconhecidos.

A estante dos livrinhos que se vê acima constituiu, com efeito, sempre um atractivo em qualquer livraria. E, normalmente, lá se encontrava mais um título ou um autor desconhecido. Lembro-me ter comprado muitos livrinhos amarelos por qualquer coisa como 1,50 ou 2,00 marcos.

Para mim, o maior contributo da RECLAM continua a ser a “batalha” contra a ignorância e o contributo para a “imortalidade da produção literária”, de que fala W. Somerset Maugham no seu The Summing Up, sublinhando, e com imensa razão, que essa imortalidade “is seldom more than the immortality of the schoolroom” !

Ora, a RECLAM contribuiu imenso para estas leituras de “salas de aulas”, tanto de obras de língua materna como de outras línguas, através das suas edições bilingues e com tradutores e comentadores de reconhecido mérito.


Aqui fica o meu grato testemunho por este trabalho de 150 anos !

Post de HMJ, como contributo para uma outra comemoração

Mary McCarthy (1912-1989)


À excepção de John Updike, dos autores norte-americanos, é talvez Mary McCarthy a escritora mais representada na minha biblioteca. Acontece que, em finais dos anos 60, estive para fazer um trabalho universitário sobre a sua obra e só à última da hora optei antes por Updike.
Numa das suas últimas entrevistas, Mary McCarthy, perguntada se posta perante uma escolha de voltar a re-viver, faria tudo na mesma, terá respondido que escreveria mais, mas leria menos.



Mulher de fortes convicções, a escritora teve uma polémica intensa com Simone de Beauvoir, figura que detestava, aliás. A emulação entre as duas é atestada por dois livros que, com diferença de apenas um ano, publicaram. Em 1957, McCarthy editou Memories of a Catholic Girlhood e Beauvoir, no ano seguinte (1958), fez editar Mémoires d'une Fille Rangée. Por outro lado, a norte-americana cultivou, com grande fidelidade, uma forte amizade com a filósofa Hannah Arendt, cuja evidência é testemunhada pela volumosa correspondência, recentemente publicada.
Os direitos cívicos e a guerra do Vietname foram duas das grandes causas em que também se empenhou intensamente.



Depois de alguns anos de relativo apagamento, a obra de Mary McCarthy parece suscitar um renovado interesse revelado pela publicação da sua obra completa (The complete fiction), em dois volumes, pela Library of America. O que não deixa de ser uma boa notícia.


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Adagiário CCLXXII


O castanheiro em Agosto quer ferver e em Fevereiro  beber.

(Provérbio transmontano)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Beach House : "Chariot"

Visitas de Estado


Eu poderia, com discrição e modéstia, simplesmente calar-me. Mas não consigo. É que há visitas que me desvanecem e o meu orgulho cresce, desmedido. E tenho que espalhar o facto aos quatro ventos.
Então, não é que o Arpose foi hoje visitado, às 14h48, nada menos do que pela Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna?! Que veio, direitinha, ao poste: Meter o Rossio na Betesga, de 31 de Agosto de 2011. Em boa hora o pus, e aqui biso a imagem.
Porque já ganhei o dia!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A propósito de um busto, numa rua de Londres


Convivo mal com a estatuária portuguesa actual. E tenho que recuar largos anos para encontrar algumas esculturas de que gosto, normalmente figurativas, sendo que duas ou três são de João Cutileiro (1937). O problema será porventura meu que, não sendo especialista, me guio apenas pelo meu subjectivo gosto estético, faltando-me, talvez, o acompanhamento teórico e crítico de suporte para o que se vai esculpindo pelo país.
A permanência durante uma semana na zona de Inverness Terrace (Bayswater, Londres), levou-me a passar quase todos os dias por um busto muito interessante, de expressão determinada e de boa execução escultórica, pelos meus padrões estéticos. O nome do retratado, Skanderbeg, nada me dizia e, displicentemente, imaginei-o como sendo de algum Viquingue nórdico que, por razões históricas, estivesse ligado à Grã-Bretanha.
O nome do escultor, Kreshnik Xhiku (1958), apesar de me soar a oriental, também nada me dizia. Mas o busto continuou a pairar na minha memória visual, persistentemente lembrado. E resolvi esclarecer a sua razão de ser e origens. Skanderbeg é afinal o grande herói albanês Jorge Castrioto (1405-1468), que foi também conhecido em Portugal e celebrado pelo historiador e cronista Francisco de Andrade (1540-1614), em livro (Crónica do valeroso Príncipe, e invencível capitão Castrioto) traduzido, de 1567. Jorge Castrioto defendeu a independência da Albânia, contra os turcos.



O busto de Skanderbeg foi executado pelo escultor albanês Kreshnik Xhiku, que reside presentemente nos Estados Unidos, e que já tinha esculpido uma estátua equestre, muito interessante, de Jorge Castrioto em Michigan, inaugurada em 2006. O busto de Inverness Terrace foi  instalado, para celebrar o centenário da restauração da independência albanesa, em 2012.

Recuperado de um moleskine (29)


Li há dias, com surpresa agradável, uma sugestão curiosa de um autor (?), que defendia a hipótese de, ao contrário de levar, para uma ilha deserta, os dez livros canónicos e preferidos, se devia antes levar um bom dicionário. Isso pouparia o intrépido robinson crusoé a emoções excessivas, impossíveis de partilhar, permitindo, no entanto, um enriquecimento vocabular extraordinário. Que talvez pudesse vir a ser de grande utilidade no futuro, caso o náufrago viesse a ser resgatado. Se isso, porventura, não viesse a acontecer, todo esse léxico, porém, viria a morrer com ele.
E não é isso o que acontece com todos e cada um de nós?
Entretanto, poupar-se-ia a presunção da escolha dos tais 10 livros, para deslumbramento dos incautos...

Alguns regionalismos albicastrenses (3, e último)


1. Anagalhar - casar.
2. Aquedéde - favor. (Se pudesse fazer a aquedéde.)
3. Arreganhar - arrefecer.
4. Assarilho - feijão pequeno.
5. Assobacado - aturdido. Confundido.
6. Azounada, azounadinha - carregadinha.